«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


sexta-feira, 30 de julho de 2010

É aquela situação... do não saber o que dizer, do saber o que dizer mas não poder dizer, do não querer dizer. É aquela situação má, que muitas pessoas vivem, mas que ninguém deveria viver. A sério!

Não te quero dizer, de forma nenhuma, que o que tens feito é um erro, que os teus últimos meses de vida têm sido infelizes - e que eu tenho notado isso. E não te quero dizer porque acho que só quem passa por uma situação como essas é que deve encontrar uma maneira de lidar com ela. Desculpa, a sério!

A verdade é que é estranho. Eu sempre soube que ia acabar assim: contigo triste e com peso na consciência. Mas porquê? Tens de estar é feliz - porque a tua tristeza vai acabar e porque estás, finalmente, a fazer o correcto: para ti e para os outros. Acredita em mim, sei o que estou a dizer, a sério!

Quero mentalmente transferir-te todas as minhas forças para iniciares da melhor forma esta nova fase na tua vida. Quero mesmo que agora comeces a viver feliz. Mas não digo isso em voz alta. Podes achar que ando a ver novelas a mais, a ler romances a mais, ou a ouvir música lamechas a mais - e talvez esteja, e por isso é que sei que andas triste e que de agora em diante só podes tentar ser feliz. E se para isso for preciso esqueceres-me a mim e aos outros, esquece, a sério!

Porque eu acho que é esse o verdadeiro amor: o não se importar de viver infeliz para que a outra pessoa fique feliz. E isso é o que eu mais quero: que sejas feliz! Tu mereces, a sério!

Mas também acho que se conseguires agora começar a viver feliz, a lutar por essa felicidade, vivendo cada dia como se fosse já uma amostra da felicidade que esperas atingir, eu também estarei feliz, porque se tu estás feliz, eu também estou. A sério!

Tudo isto porque te amo mesmo a sério!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tenho um problema com títulos, melhor: não gosto de títulos. Os títulos fecham a mente do autor se o escreve antes de dar corpo ao texto. Se der o título só depois do texto escrito, vai limitar a compreensão do leitor às palavras que escreveu. É por isso que não gosto de títulos - porque raramente são bons para o leitor e bons para quem escreve - e isso não é nada bom. Mas mesmo assim, consigo perceber porque é que o título é importante: porque sintetiza a ideia de um texto, porque leva o autor a focar o seu pensamento e o leitor a seguir com mais facilidade o pensamento do autor. Percebo o seu uso, mas continuo sem gostar.
De vez em quando uso títulos, mas outras vezes não me apetece parar para pensar no título que vai ter um texto que ainda nem escrevi ou parar para pensar no título que vou dar às palavras que acabei de escrever. A questão dos títulos é dúbia, para mim. Percebo, mas não gosto. Umas vezes uso, outras não. Neste texto podia usar um título: «Títulos», mas depois, por ser simples de mais, iam criticar-me que eu sei - é por isso que não gosto de títulos: porque reflectem demasiado do autor - ou a simplicidade do momento por que passa, ou a complexidade difícil de perceber que quer transmitir - e isso vai limitá-lo sempre aos olhos dos outros.
Não gosto mesmo de títulos, mas uso-os e hei de continuar a usá-los. Tem de ser. Está na Constituição, ou talvez não. Mas é moral, social e literáriamente necessário o uso do título.

Mas este texto não tem título. Porque se não teria de chamar-se «Títulos» e isso não iria permitir-me falar da ideia tão simples do pôr-do-sol que se faz sentir no país onde ela está. Onde ela tem sido tão feliz e que tanto tem contribuído para a minha tristeza. Enfim... está um pôr-do-sol bonito lá no país dela. E aqui... Aqui está uma noite única, como ela de certeza nunca sentiu. E eu sinto-a pelo frio que me gela os dedos, e entra pelo corpo como se fosse uma espada afiada pelos séculos que vem espetar cada milímetro de corpo. É assim o frio desta noite. Mas é uma noite de beleza diferente. Uma noite que apesar de fria me aquece o pensamento, talvez porque com ela me traz as tuas memórias, porque me traz a leitura das tuas cartas escritas sem sentimento, mas escritas à mão, como tu e eu tanto gostamos. É mau este frio. Mas eu não desisto, porque está frio sem vento, porque passam poucos carros na estrada principal e porque, acima de tudo, foi este frio que me lembrou de ti. Não desisto da noite fria, com a esperança quase eterna que me traga uma manhã feliz com mais uma carta tua. É por isso que não saio deste alpendre, deste bocado de árvore que uso para me sentar, e olhar o céu escuro e triste, eu não quero sair, eu não quero desistir.
E apesar de estares aí, nesse país só teu, com esse pôr-do-sol fantástico, eu estou aqui - tenho uma noite fria a aquecer-me a alma, um dia igual a todos os outros que irá nascer de manhã, mas não quero deixar de pensar em ti, nas tuas cartas... nos títulos que lhes daria se gostasse de títulos...

Desejo-te um bom pôr-do-sol, com um beijo como todos os que quero dar-te se um dia regressares desse teu país, com a vontade de viveres estas noites frias comigo, e juntos, sentados neste alpendre dar-mos «Títulos» às tuas cartas tristes e vazias.
Assinado por mim,
sempre.

sábado, 24 de julho de 2010

É dia de festa na vila. As famílias saem à rua fazendo-se de felizes. As senhoras vestem uma roupa que evidencia as férias, o sol, o bom tempo, o ser-mulher... Os senhores o pólo de domingo e do passeio saloio, porque, parecendo que não as festas da vila são um momento quase tão importante como o passeio saloio de mês a mês, para ir comprar pevides ou tremoços lá para os lados vizinhos... porque podem vestir um pólo-betinho, mas o lado saloio está-lhes no sangue, não é só no passeio - e um tremoço sabe sempre bem! E a noite está agradável. Permitiu às senhoras o decote e aos senhores renovar as vistas.
As crianças andam a correr num fernezim estúpido e chato que fazia uns gritar pela quietude e outros virar o olhar noutra direcção para fingir que estavam de férias, que não se preocupavam e que estavam nas festas da vila.

É o momento alto do verão do autarca: os seus munícipes ali reunidos, um discurso ensaiado e preparado, o charme a espalhar, a palavra amiga, e o carro com motorista à espera - porque afinal são as festas da vila: do munícipio para os munícipes, nunca para o autarca - esse discursa, assina uns papéis e é feliz no seu carro com motorista.

E a vida parecia correr de feição. As famílias estavam felizes. Esqueceram os males da vida. As faltas de dinheiro. O dinheiro escondido. O dinheiro descoberto. O dinheiro envolvido... esqueceram, ou fizeram por se esquecer... eram as festa da vila, caramba! O momento era de festa - ver os vizinhos mais distantes, mostrar a um qualquer turista resistente que ali residia a felicidade, tentar assim convencê-lo de que afinal está num país diferente, em que há festas felizes, onde as famílias são alegres, as traições esquecidas, os filhos compreendidos, os primos emigrantes estão presentes, e tudo parece encaixar... porque afinal, as festas da vila são só uma vez por ano!

Vem a banda do momento, ou então outra banda qualquer, que isso não interessa, porque o público está lá mesmo que seja algo que nem nome tenha, porque o que interessa é que a vida corre o seu curso normal. Os sorrisos são espelho da alegria momentânea daquela vila, que sai à rua naquele dia para dizer que sim, que está viva, de boa saúde, que se recomenda e que a vila é bonita, o autarca uma pessoa capaz e que até tem feito um bom trabalho. As festas da vila marcam o ritmo daquelas vidas, e isso não é mau! Mesmo que no dia seguinte tenham de apanhar o autocarro para ir até às Finanças tratar dos recibos verdes, porque o fundo de desemprego está a acabar e têm de se atirar ao mundo, ou mesmo que no dia seguinte e em todos os outros tenham de ficar em casa, a contentar-se com o som alto da televisão, com as conversas ocas ou demasiado profundas que nem as entendem - isso não interessa - o dia de amanhã pouco interessa, porque o dia de hoje é marcado pelas festas da vila... sempre melhores de um ano para o outro! A Comissão de Festas anda a trabalhar muito bem! Tem sabido cativar o público, e isso vê-se, cada vez há mais gente a vir viver a vila, esta noite de vento fraco e de lua ao alto, em que as gargalhadas voam com o som da banda é o espelho disso mesmo.

As festas da vila são vividas de forma diferente pelas várias pessoas. Quem vai no formato família-feliz ficam juntos, sorriem a quem passa, não conversam ou então conversam entre dentes, num misto de cumplicidade e espírito social. Depois há os que vão para-ver-a-malta e esses espalham simpatia, passam a mão pelo bigode vêem umas miúdas giras, e voltam para casa, como se nada fosse, voltam a entrar na rotina mas ao menos viram a malta! Depois há os adolescentes. Os com borbulhas e envergonhados, que vão com as famílias. Ou os giros e feios que são do social e vão ter com o pessoal. Enfim, as festas da vila, são como a vida - rica em estereótipos, e isso é normal....

As festas da vila também têm uma coisa: recantos. E é mau quando aquele em que esperava ir está ocupado. Mas é mais emocionante ter de procurar outro recanto a correr, com a miúda de mãos dadas, porque os pais dela só lhe deram meia-hora. Mas a vila tem muitas coisas boas, e para além das festas da vila, tem recantos que dão a oportunidade aos enamorados de viver a noite das festas da vila de outra maneira - como uma noite diferente - porque são jovens, e não sabem que as festas da vila, vão ser sempre vividas da mesma forma, porque serão sempre as festas da vila... E isso não é mau.

domingo, 11 de julho de 2010

E estava ali sozinho, a ver o mar destruir as construções feitas em areia pelos mais novos. E inevitavelmente, lembrei-me de ti. Costumávamos ver o sol a dar lugar à lua, naquela praia, nas tardes de fim-de-semana. E víamos sempre o mar a tomar o controlo da praia, de todas as praias. É um gesto bonito o do mar, em dar a sua areia por momentos às crianças para construírem os seus castelos e buracos... e à noite, volta a assumir o controlo daquela praia. De todas as parais. E assim como uma onda que vem, lembrei-me de ti. E como uma onda que vai, partis-te outra vez. Será que para sempre?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Que estranho este sentimento de nostalgia que o invade enquanto o vento lhe sopra na cara.

Parece um filme... E ele está a vê-lo projectado no ecran. Está a ver-se a si projectado no ecran. Enquanto chora compulsivamente, pensando nos sentimentos que o invadem neste momento de solidão que não escolheu.

E ele não gosta do que vê. Vê um tipo alegre que chora; um tipo feliz que está triste; um tipo com tudo para ser feliz, mas que não o é totalmente.

E ele percebe que afinal é mesmo esse tipo. Quer queira, quer não. Quer goste ou não. Ele é aquele tipo que ao pensar em como te teve, e em como te deixou ir, fica assim: meio aparvalhado dos sentimentos, sem razão nas palavras e sem nexo no olhar, que vê tudo sem querer, mas esquece o essencial... que é que continuas aí. E isso é tão bom!


Só tem de lutar por isso outra vez, não é? Mas custa tanto...