É dia de festa na vila. As famílias saem à rua fazendo-se de felizes. As senhoras vestem uma roupa que evidencia as férias, o sol, o bom tempo, o ser-mulher... Os senhores o pólo de domingo e do passeio saloio, porque, parecendo que não as festas da vila são um momento quase tão importante como o passeio saloio de mês a mês, para ir comprar pevides ou tremoços lá para os lados vizinhos... porque podem vestir um pólo-betinho, mas o lado saloio está-lhes no sangue, não é só no passeio - e um tremoço sabe sempre bem! E a noite está agradável. Permitiu às senhoras o decote e aos senhores renovar as vistas.
As crianças andam a correr num fernezim estúpido e chato que fazia uns gritar pela quietude e outros virar o olhar noutra direcção para fingir que estavam de férias, que não se preocupavam e que estavam nas festas da vila.
É o momento alto do verão do autarca: os seus munícipes ali reunidos, um discurso ensaiado e preparado, o charme a espalhar, a palavra amiga, e o carro com motorista à espera - porque afinal são as festas da vila: do munícipio para os munícipes, nunca para o autarca - esse discursa, assina uns papéis e é feliz no seu carro com motorista.
E a vida parecia correr de feição. As famílias estavam felizes. Esqueceram os males da vida. As faltas de dinheiro. O dinheiro escondido. O dinheiro descoberto. O dinheiro envolvido... esqueceram, ou fizeram por se esquecer... eram as festa da vila, caramba! O momento era de festa - ver os vizinhos mais distantes, mostrar a um qualquer turista resistente que ali residia a felicidade, tentar assim convencê-lo de que afinal está num país diferente, em que há festas felizes, onde as famílias são alegres, as traições esquecidas, os filhos compreendidos, os primos emigrantes estão presentes, e tudo parece encaixar... porque afinal, as festas da vila são só uma vez por ano!
Vem a banda do momento, ou então outra banda qualquer, que isso não interessa, porque o público está lá mesmo que seja algo que nem nome tenha, porque o que interessa é que a vida corre o seu curso normal. Os sorrisos são espelho da alegria momentânea daquela vila, que sai à rua naquele dia para dizer que sim, que está viva, de boa saúde, que se recomenda e que a vila é bonita, o autarca uma pessoa capaz e que até tem feito um bom trabalho. As festas da vila marcam o ritmo daquelas vidas, e isso não é mau! Mesmo que no dia seguinte tenham de apanhar o autocarro para ir até às Finanças tratar dos recibos verdes, porque o fundo de desemprego está a acabar e têm de se atirar ao mundo, ou mesmo que no dia seguinte e em todos os outros tenham de ficar em casa, a contentar-se com o som alto da televisão, com as conversas ocas ou demasiado profundas que nem as entendem - isso não interessa - o dia de amanhã pouco interessa, porque o dia de hoje é marcado pelas festas da vila... sempre melhores de um ano para o outro! A Comissão de Festas anda a trabalhar muito bem! Tem sabido cativar o público, e isso vê-se, cada vez há mais gente a vir viver a vila, esta noite de vento fraco e de lua ao alto, em que as gargalhadas voam com o som da banda é o espelho disso mesmo.
As festas da vila são vividas de forma diferente pelas várias pessoas. Quem vai no formato família-feliz ficam juntos, sorriem a quem passa, não conversam ou então conversam entre dentes, num misto de cumplicidade e espírito social. Depois há os que vão para-ver-a-malta e esses espalham simpatia, passam a mão pelo bigode vêem umas miúdas giras, e voltam para casa, como se nada fosse, voltam a entrar na rotina mas ao menos viram a malta! Depois há os adolescentes. Os com borbulhas e envergonhados, que vão com as famílias. Ou os giros e feios que são do social e vão ter com o pessoal. Enfim, as festas da vila, são como a vida - rica em estereótipos, e isso é normal....
As festas da vila também têm uma coisa: recantos. E é mau quando aquele em que esperava ir está ocupado. Mas é mais emocionante ter de procurar outro recanto a correr, com a miúda de mãos dadas, porque os pais dela só lhe deram meia-hora. Mas a vila tem muitas coisas boas, e para além das festas da vila, tem recantos que dão a oportunidade aos enamorados de viver a noite das festas da vila de outra maneira - como uma noite diferente - porque são jovens, e não sabem que as festas da vila, vão ser sempre vividas da mesma forma, porque serão sempre as festas da vila... E isso não é mau.