«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


sexta-feira, 30 de abril de 2010

História de Uma Mulher

Ela vivia cada dia de forma igual. As mudanças eram poucas. As alegrias, tristezas, sorrisos e momentos que a fizessem levitar eram quase nenhuns. E ela acomodou-se. Acomodou-se a pensar que era a vida que merecia e que a culpa era dos outros. Acreditava que a infelicidade que vivia era a felicidade que lhe era permitida e a que lhe estava reservada. Vivia com o amor de um homem, e sabia que não o correspondia. Não queria saber. Ele amava-a, mas ela achava que era porque também ele se tinha acomodado. Não pensavam mais além, não pensavam no «e depois?», já quase não pensavam. Viviam cada dia de forma monótona, com as horas a passar e a vida - apesar de parecer parada - corria. E eles não sabiam.
Ela queria mudar, mas não sabia o quê. Queria viver, mas não sabia como. Queria conseguir amá-lo, mas estava sem vontade de tentar. Acomodara-se a tudo. À vida, ao amor que recebia e ao que não tinha de dar, às pessoas que passavam sem a ver e às pessoas que a viam e viravam a cara - com medo de que esta história pudesse ser a delas.
...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tu...

Tu que me gritas quando eu não quero ouvir, que me levas onde eu não quero, que me arrastas e me levas a dizer o que não quero, só para te agradar. Tu, que me odeias e me amas, que me descartas quando te fartas e que me puxas quando sentes saudades. Tu, que no fundo sabes que não consegues viver sem mim. Tu... que eu sei tão bem nunca vais saber que te escrevi isto. Porque o mar está a chegar ao mesmo tempo que tu - e quando tu chegares ao pé de mim, já vais ver a areia limpa, e as letras a irem naquele mar salgado - que me chama a escrever para ele, porque ele me entende tão bem... e tu, tu nunca me hás de entender. Mas é assim que nós gostamos. É assim que, pelo menos, toda a gente gosta de ti. E eu também.
Adeus!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ela estava ali. Encostada, sem saber o que dizer. Farta de dizer sempre as mesmas palavras. Os olhas brilhavam. Fartos de conter as lágrimas. Depois de quase caírem, voltaram para dentro aquelas lágrimas que ela queria deitar cá para fora juntamente com um grito seco de raiva, de ódio, de medo - de puro medo de perder uma pessoa que ama. Com medo que a vida dela mude para sempre, sem ela poder dizer uma palavra quanto a isso. A vida para ela não fazia sentido. Quem estava com ela percebeu que sem saberem eram amigos de uma vida. Demonstraram o carinho que os unia ao partilharem aquele momento, ali os três encostados em paredes diferentes. Paredes que reflectiam o que sentiam naquele momento. E por entre compreensão, desespero, ódio por situações assim, a amizade estava presente e os dois amigos perceberam que tinham de sair. Saíram e as lágrimas dela escorreram. E depois de ter extravasado aquilo que tinha dentro de si para que só as paredes a ouvissem. Voltou a ser a pessoa que os outros conhecem. Compreensiva, que ouve e que tem sempre algo a dizer a quem a procura. Desligou o lume, colocou a água na chávena e foi beber o seu chá, na companhia de quem naquele momento precisava dela.

Sonhos

Sonho a toda a hora. Sonho mais que muito e não me canso de sonhar. O medo vem com os sonhos - o medo de que sejam só sonhos e que por isso nunca se tornem realidade. Sonho com coisas que me parecem possíveis de acontecer já no próximo minuto. Se é possível que aconteça porque não acontece? O que posso fazer mais para que o sonho que me ocupa os minutos silenciosos se torne a realidade?
Sonho a toda a hora. E agora sonho com um sonho feliz. Em que o avô melhora rapidamente. Em que sai do hospital. Sonho com toda a gente feliz num jantar de terça-feira. Sonho que é possível isto acontecer. Sonho agora e vou continuar a sonhar. Vou continuar a sonhar com dias de sol sem vento. Com amigos e o tempo todo para ser feliz. Por esse país fora... a ouvir música e a dar gargalhadas, sentados a conversar e a ver ao longe a noite a chegar. A viver noites boas e a sermos todos felizes. É outro sonho bom que me tem ocupado mais do que os minutos silenciosos. Tem-me ocupado quase todos os minutos. Custa-me a adormecer com tantos sonhos e custa-me a viver a realidade que seria tão melhor se estes dois sonhos se realizassem agora... Enfim... Sonho porque quero acreditar que a vida pode ser uma vida de sonho. Ou melhor, uma vida com muitos sonhos - e sonhos felizes!
E tu, que me deixaste e partistes sem pensar, sonhas como eu? Não, já me esquecia... tu és o meu sonho, e por isso, não precisas de sonhar. Vou continuar a fazer o que tenho feito até hoje. Sonhar e escrever, escrever e sonhar. Rir e gostar, gostar e rir. Olhar, rir e SONHAR, ah, e ir-te dizendo que vou continuando a sonhar... não contigo, mas para ti.

terça-feira, 6 de abril de 2010

DESILUSÃO

Não sei como te dizer isto mas... tenho medo de tudo.
Hoje sinto medo de gostar de ti demais, ou de começar a gostar menos de ti.
Todos os dias o sentimento de desilusão me aparece. Não relativamente a ti, mas relativamente ao mundo.
Por vezes, sinto que o mundo me desilude. E o que mais tenho medo hoje é de desiludir o mundo, o meu mundo.
De desiludir as pessoas que como tu gostam de mim. De desiludir as pessoas que podem vir a gostar. Sabes que não tenho muitos amigos - tenho aqueles que acho que são essenciais - mas às vezes só penso que tenho de fazer tudo para não os desiludir.
Quando tomo alguma decisão penso sempre «será que estou a desapontar alguém», «será que estou a dar motivos para que não tenham orgulho em mim»?
Custa-me pensar estas coisas. Mas é a verdade, nós procuramos, inconscientemente, a aprovação dos outros, e eu não sou excepção. Não te quero desiludir. Quero que tenhas sempre orgulho em mim.
Pode ser?