«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


quarta-feira, 31 de março de 2010

No bar. Às 10 e 10.

Ela passeava sem destino,
Dançava com o vento.
Olhava sem rumo,
Não tinha ambição.
Vivia cada dia pior,
Sem alma no coração.
Respirava sem saber,
Vivia sem querer.
Desconhecia o olhar que a via.
Nem pensava, mas acontecia.
Alguém de olhar sereno e virgem,
Observava-a e, sem culpa, despiu-a.
Sentiu-se incomodada, e partiu.
E ele, sentiu-se inútil e fugiu.
Ganhou vida e escreveu.
Era um escritor sem dom,
que procurava sensações.
E ela uma mulher com vida,
que procurava ambições.
E assim a vida continuou.

Janela Entreaberta

João passeava. Percorria aquele caminho pela primeira vez, mas não reparava nos pormenores. Não via as caras com que se cruzava, as casas que iam passando, as flores que apareciam ao sol naquele dia de Primavera.
Percorria aquele caminho sem saber onde ia dar.
Disse olá a quem a ele se dirigiu, acenou a quem lhe acenava e logo voltava a entrar nos seus pensamentos sobre nada e sobre tudo.
Sem se aperceber mudou de direcção. Continuou a caminhar...

João encontrou-se a ele próprio nos cheiros fortes da hora de almoço, nas cores dos cortinados que vinham para a rua num compasso de espera que aquele vento de Primavera obrigava. Mas acima de tudo, João encontrou-se nas conversas cruzadas, nas gargalhadas que se ouviam e em toda a alegria que aquela janela entreaberta lhe provocou.
Sentou-se no chão, continuou nos seus pensamentos.
Depois de algum tempo, levantou-se. Mudou de rumo e foi feliz!


[A janela é um simples momento e o caminho é a vida, porque acredito que um momento pode transformar uma vida. Hoje, uma história feliz, porque a Diana gosta de histórias felizes. Parabéns! 31-03-2010.]

domingo, 28 de março de 2010

às vezes

Às vezes ele é feliz. Outras vezes não.
Às vezes quer muito viver, mas há momentos em que só quer é morrer.
Às vezes sorri com a simplicidade, outras vezes odeia-a de tão monótona que se torna.
Às vezes vive bem com quem vive. Outras vezes só quer viver sem alguém.
Às vezes inerva-o o adiar de algo. Mas há outras vezes em que não suporta a obrigatoriedade da vida.
Às vezes pensa que ela o faz feliz. Outras vezes, só quer ser feliz sem ela.
-
Na maioria das vezes não sabe o que diz.

quinta-feira, 25 de março de 2010

[Ok, este texto que estais a ler é o segundo. Porque eu tinha acabado de escrever a 1ª via e cliquei no botão errado... escusado será dizer que foi tudo com o caraças. Mas pronto, passemos ao que interessa, a ver se me lembro... ora, ora, o que aqui queria dizer é que, como disse no outro blogue, hoje foi um dia feliz. E ontem também. E o que este parêntesis grande vos quer dizer é que o primeiro post deste blogue fez ontem 2 anos! O segundo post teste blogue faz amanhã dois anos! Antes do post anterior (o que está debaixo deste) tinha 22 posts... não que seja viciado em simbologias, coincidências ou afins, mas tem piada! O que tem menos piada é eu assumir, aqui: perante dois ou três gatos pingados que até vão passando por aqui, que o post abaixo tem um fundo de verdade. Não, calma, eu não perdi o grande amor da minha vida há dois anos... não! Até porque isso do amor me diz pouco, mui pouquito mesmo - só mesmo para escrever... Mas faz precisamente hoje dois anos que eu perdi o animal que mais amei em toda a minha vida até chegar esta pequena gata que me olha ali da caminha dela e me vê a bater nas teclas do teclado e deve pensar... hmm, e se eu fosse dar ali uma trincadela, hein? Pois, piadas à parte, a Bia - assim se chamava a minha cadela preta pequenina, gordinha, com o pêlo comprido e muito (mesmo muito) linda morreu faz hoje dois anos. Não chorei nem nada, ok, talvez tenha chorado - mas não me lembro! Mas a verdade é que hoje, depois de dias tão bons como tenho tido - e que já relatei - não queria deixar de dizer um olá telepático à minha pequena cadela que deve estar lá - para o cemitério dos cães mais lindos. E agora, ainda com a bela gata a olhar para mim, queira deixar claro que este blogue serve para dar asas à minha veia poético-romântica (que pirosada!), e que o outro é onde me dirijo assim - directamente - onde falo da vida e de tudo o que me apetecer, mas agora, com tantos '2' que vos queria contar, tinha mesmo de fazer este pequeno (mui pequeno, by the way) parêntesis. Referir, no entanto, que este blogue não é - MESMO - auto-biográfico! Não vou dizer que um ou outro acontecimento não inspirem alguns dos textos aqui presentes. Para acabar em beleza, dizer que a referida gata - o animal que mais amo actualmente, e que à pouco estava a olhar-me, agora está colada ao computador a olhar para os meus dedos... estou com medo... Lol // Um beijinho Bia. O dono gosta muito de ti! // E pronto, disse o que tinha dizer, e usei uma série de vezes as palavras post, blogue e parêntesis - estou feliz! Principalmente porque as disse outra vez... Fim de citação.]

Naquele dia...

Naquele dia ele fez tudo a correr...
Queira fazer tudo a correr só para chegar perto dela outra vez.
Para voltar a senti-la.

Conversou a correr.
Comeu a correr.
Trabalhou a correr.

Viveu a correr.

Tudo isso inconscientemente.
Só para estar perto dela.
Para voltar a pensar na vida.
Para voltar a olhar orgulhoso para a vida.

Aquele dia, ele viveu-o bem-disposto.
Mesmo apesar de ser um dia que o deixava triste.
Foi naquele dia que passavam dois anos sobre a morte dela.

Naquele dia ele continuava a amá-la.
E esteve sempre com ela...

quinta-feira, 18 de março de 2010

NÃO!

- Não, por favor, não!

Foram as últimas palavras que Cristina disse, o seu mundo tinha acabado. Era o fim, o seu fim.

Sem saber como, Manuel tinha acabado de calar Cristina. A sua mulher morrera-lhe nos braços.

- Como é que é possível? Acorda! Não me deixes!

Eram estas as palavras que Manuel dizia, depois de perder a sua mulher, de a ver partir por tanto sofrer. Manuel tinha agora dois filhos para educar, para fazer crescer com felicidade. Mas como fazê-lo? Era Cristina que fazia isso, era ela que cuidava da casa, era ela quem educava e tratava dos filhos, e sem perceber como, Manuel viu-se sem a sua mulher. Chegou a ambulância.

- O que raio aconteceu aqui? – perguntou o para-médico chocado com o cenário que observava, mas infelizmente sabia a resposta, não era a primeira vez que se deparava com situações destas.

- Não sei homem. Ela está morta? – perguntou Manuel aterrorizado.

Sim, Cristina tinha realmente partido. Partido para um mundo bem melhor, onde iria ver os seus filhos crescer e ao mesmo tempo não ia ter de ver o seu horrível marido espancá-la diariamente.

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[escrito a 18 de Setembro de 2008. já na altura a escrita era um mundo. o meu mundo. ou melhor: o mundo que eu queria para mim.]

domingo, 14 de março de 2010

saudades

Saudades do tempo em que andávamos descalços pela casa. Saudades do tempo em que a vida parecia simples. Saudades dos momentos em que não se fazia nada. Saudades dos momentos em que o teu simples sorriso de manhã iluminava o meu dia. Saudades das noites frias de pijama, enrolados num cobertor grande e quente. Saudades da série que dava e que assistíamos juntos vezes sem conta. Saudades das viagens partilhadas. Saudades dos silêncios partilhados.

Hoje o silêncio é outro, porque é vivido sem ti, e é muito mau.
Tenho saudades tuas...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Uma vida estragada

Joana passara toda a sexta-feira a pensar na noite que tinha pela frente. Ia sair. Ia à mesma discoteca de sempre. E esperava encontrar alguém. Alguém muito especial.
Nas suas últimas idas àquele lugar cruzara-se sempre com um rapaz que a consumia por dentro. Queria abraçá-lo sempre que se cruzavam e nunca mais o largar. E, sem saber, o desejo era recíproco.
E a noite chegou e Joana foi com uma amiga que logo-logo encontrou alguém com quem partilhar a noite e deixou Joana ali, de copo na mão a ver as pessoas passar.
Vê-o entrar na porta e num misto de sentimentos muda a direcção do seu olhar. Não o viu chegar ao pé de si. Mas gostou de virar a cara e de ver que aquele momento estava mesmo a acontecer.
Luís era tudo o que uma mulher podia desejar. E era isso que fascinava Joana. Um jovem rapaz, com uma beleza natural e que chamava a atenção, que aparenta estar bem na vida e que mais do que isso distribuía simpatia. Joana estava verdadeiramente interessada. Enquanto pela sua cabeça passavam imagens de como aquela noite podia acabar, o seu coração batia mais forte. Não pela emoção, mas sim pelo nervosismo que a emoção acarreta. E quando regressou àquele lugar, Luís perguntava-lhe se o acompanhava até à pista. E Joana disse que sim, tentando não mostrar demasiado interesse, mas verdadeiramente desejosa que a noite avançasse.
E a noite avançou. Avançou como se esperava. Como ambos esperavam.
Luís dera o primeiro passo. A música ia alta, e a pista ao seu ritmo, quando Joana recebeu o primeiro beijo daquele que queria guardar consigo para sempre. E depois do primeiro vieram todos os outros. As mãos percorriam os corpos e o desejo aumentava.
Chegada a hora do meio da noite. Os corpos de Joana e Luís ansiavam por mais. Luís perguntou se Joana queria sair dali. A resposta não levou a mais nada a não ser que logo iniciassem o percurso em direcção à saída.
Joana envia uma mensagem à amiga a dizer que se tinha ido embora.
E saíram. Luís pagou a bebida de Joana, e já na rua, Luís ofereceu-se para a levar até à sua casa. Ambos sabiam onde a noite ia acabar.
E acabou onde se espera. Na casa de Joana aqueles corpos sedentos um do outro uniram-se. Uma e outra vez. Joana nunca tivera sido tocada daquela forma. Com todo aquele desejo junto com tanta ternura e calma. Pensara ela que aquele toque era especial. Mas a verdade é que era daquela forma que ela esperava que acontecesse. E por isso aconteceu e ela o sentia tão especial.
E, de facto, foi especial. A noite passou, e a manhã chegou. A roupa no chão - espalhada, reflectia o fernezim que aqueles corpos viveram na noite passada. Uma noite tão especial e tão diferente.
Joana acordara, com o sol na cara de uma manhã de sábado que convidava à paixão, ao romance e à união. Preparou o pequeno-almoço e levou-o a Luís. Acordou-o com o tabuleiro nas mãos, com tudo aquilo que naquele momento precisavam, que era pouco, pois pensavam, tinham-se um ao outro, e isso era tudo. E a noite fantástica prolongou-se pela manhã.
Luís teve de sair. Tinha compromissos. Depois de uma despedida difícil, e com a promessa de que voltaria assim que pudesse, Joana foi encher a banheira, decidida que aquela noite ia prolongar-se pelos dias que viessem.
Queria muito viver assim - apaixonada. Mas o receio do resultado daquela noite assustava-a. Não tomava a pílula há dois dias e não tinham usado preservativo. Dali a uns dias iria a uma farmácia.
Mas sem saber, aquela que tivera sido a sua melhor noite, a noite em que alguém lhe tocara de forma tão especial, fora também, e para toda a vida, a pior noite de uma vida que queria cheia. Pois foi nessa noite, na única noite que acabou por passar com Luís - que nunca mais viu, e que apenas deixou um bilhete na caixa de correio do seu apartamento a dizer que tinha sido diferente para ele também, que ficou com a vida destruída. Sem saber, o vírus-maldito da sida já a habitava.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Verbo e a Necessidade

Viver é difícil.

É preciso respirar sempre,
É preciso olhar sempre,
É preciso estar sempre presente.

Amar é difícil.

É preciso ser sempre eu,
É preciso ser sempre teu,
É preciso ser sincero.

Para viver
É preciso amar.

Para respirar
É preciso ser teu.

Para estar presente
É preciso ser sincero.


E para escrever é preciso sonhar!

Vergonha

Quando ela falava com ele sobre a vida de alguém, ele sabia que era sobre a sua própria vida que falavam naqueles minutos.
Quando ela lhe perguntava como ele reagiria perante tal situação ele sabia que lhe estava a pedir para a perdoar.
Quando a conversa acabou, ela pensara que tudo tinha acabado.
Pediu desculpas.

E ele desculpou.

Quando ele falava da vida de outra pessoa, ela sabia que era sobre aquilo que ele gostava de viver com ela que falavam.
Quando ele olhava pela janela enquanto falavam de sentimentos, ela sabia que era porque queria chorar.
Quando a lágrima escorreu, ele pensara que era um fraco.
Levantou-se e ia a sair.

E ela deteve-o.
E como num filme que acaba bem, beijaram-se e foram felizes por um momento.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ele enrolava e desenrolava a fita das chaves, que faziam barulho. Pensava em tudo o que tinha vivido. Pensava nas palavras que ouvira, no dia que vivera, e sem se aperceber, o seu coração batia a toda a velocidade. Queria sair dali. Mas não sabia para onde. Vivia aqueles momentos dolorosos outra e outra vez. Viveu-os vezes sem conta. Queria mesmo sair dali. Mas não sabia como. Sem se aperceber, o coração acalmava. E os pensamentos acalmavam também. O momento estava a chegar. Tinha de se acalmar, e por saber isto, o seu organismo respeitava e seguia estas instruções inconscientes. E as mãos de quem viveu uma vida naquele dia colocaram a chave na ignição e no volante e arrancaram. Sem destino, ou talvez não. O destino ele sabia qual era. Tentar a cada dia morrer para reencontrar o amor que acabara de enterrar.
...

domingo, 7 de março de 2010

A - M - I - Z - A - D - E

Era um dia normal de Primavera. Luísa gostava especialmente desses dias, e levantava-se particularmente cedo, e às seis da manhã já a casa pequena e de uma vida cheirava a café e torradas. Hoje levantara-se particularmente bem-disposta. A vida corria-lhe bem e hoje o dia estava bonito.

Luísa gostava de ver o dia amanhecer ou de ver a claridade a tornar-se luz, e naquele momento via isso, com o seu café seguro pelas suas mãos de pele fina e enrugada que reflectia a vida que vivera e as experiências que tivera. Luísa dizia que cada ruga que tinha era um sorriso sincero que tinha dado a alguém – era esta a forma de se assumir como uma pessoa de boa índole e que assumia as suas rugas, demonstrando que até era bom tê-las.

Luísa perdera o único homem que amara havia tempo, e vivia agora para a sua casa, as suas flores, e acima de tudo para as suas duas filhas e para os seus pequenos netos. Hoje o dia parecia-lhe melhor do que todos os outros. As flores tinham um perfume mais intenso, o sol brilhava mais, e a vida parecia-lhe melhor. Hoje tinha um almoço com uma das suas filhas.

Estava marcado desde o fim-de-semana quando todos se encontram na pequena casa da avó Luísa e a enchem com gargalhadas e gritos de alegria. E marcado que estava, não era preciso confirmar. Luísa assumira este ritual mãe-filha desde que deixara de trabalhar, momento que coincidia com a chegada do primeiro neto. Aí passou a combinar semanalmente um almoço, um lanche ou um simples café, em que dava a cada uma das suas filhas, separadamente, um momento a sós com a mãe. E como gostavam desse momento.

Hoje o almoço era à beira-mar com a promessa de um peixe grelhado e de boa conversa. O sol ia alto e o almoço correu. Terminado o café, a filha de Luísa fez questão de pagar o almoço à mãe e retomou a sua vida de mãe e trabalhadora de sucesso, deixando ali a sua mãe, Luísa, a aproveitar com a calma que merece aquele sol primaveril que lhe provoca um sorriso constante.

O tempo passava e Luísa ali continuava. Bebia o seu sumo de laranja natural descontraidamente, reflectindo a forma como encara a sua própria vida. E olhava o mar que brilhava com aquele sol dourado que iluminava o dia com o espírito próprio de um dia assim. E Luísa ali permanecia, com as suas leves mãos entrelaçadas sob as pernas cruzadas e olhava o mar.

Enquanto olhava o mar pensava no que a relação que mantinha com as filhas era de verdadeiro amor. Este sim era o amor de uma vida. Mas Luísa pensava também que era na relação que mantinha com as suas filhas, e na relação que elas mantinham entre elas e consigo que residia aquilo a que se pode chamar de amizade verdadeira. Era ali que ela encontrava o que era ser amigo. E pensava que ser mãe é dar amor e também amizade, para que tudo se construa numa base de harmonia e felicidade. E assim corria a vida de Luísa. Feliz com a amizade que tinha com as suas filhas, que era o verdadeiro reflexo de todo o amor que sempre lhes tinha dado.

- E como em sete parágrafos se pode escrever uma história de um sentimento tão puro e verdadeiro com apenas sete letras: A-M-I-Z-A-D-E. Que é na verdade o resultado de um grande amor.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O mar ondulava à nossa frente e o mundo era nosso naquele momento - só nosso e de mais ninguém! Queríamos que continuasse assim para sempre. A realidade chamava... e nós respondemos ao chamamento. E hoje estamos arrependidos. Podia ter sido tão diferente. Não podia?