«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

«vai-se indo»

De vez em quando ele sentia que nada fazia sentido. Que o que estudava não fazia nada por ele. Que só quando escrevia tudo fazia sentido. Que só quando sonhava a vida fazia sentido. Só quando pensava que ia ser capaz é que a vida lhe parecia feliz. Naquele dia ele estava feliz. Não 'super-feliz', mas feliz! E fez o que gosta. Escreveu. Sonhou. Tentou espalhar o seu sonho. Tem vergonha, receio, verdade e vontade de ir em frente. Mas às vezes faltam-lhe as forças e ele diz «vai-se indo». Não devia, mas é assim.
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Um dia vai conseguir... Esperemos!

O que deseja?

Eles viviam.
Viviam a mil.
Sempre a correr.
Sem saber o que dizer, quando dizer, como dizer.
Sem saber como fazer mais.
Eles viviam.
Viviam sem saber o que desejavam...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Câmara Lenta

Parecia um filme.
Um filme em câmara lenta.
A música ia alta. Aumentava cada vez mais.
Mas eles não ouviam.
A música não interessava nada.
Ela transbordava de raiva - de sentimentos que tinha de lhe falar.
O amor era isso - partilhar sentimentos.
Ele não queria acreditar.
Ela não se calou.
As lágrimas escorriam pelas suas caras.
Não podiam mais continuar assim.
Ele levantou-se.
Ela pediu-lhe para não dizer nada.
Entreolharam-se.
O amor ainda existia. Ou não?
Ela parou de chorar.
Olhou para ele e dizendo tudo o que conseguia dizer,
disse: "Não posso mais."
E virou as costas.
Ele só agora parava de chorar.
O que queria tudo aquilo dizer?
Ninguém percebia.
A câmara lenta continuava.
Ele aproximou-se dela.
Ela voltou-se e disse-lhe ao ouvido:
"Nunca te vou esquecer".
E partiu.
E a câmara lenta terminou.
O filme tinha acabado.
Ela partira.
E os dois ficaram para sempre ligados.
Ligados por aquele filme gravado apenas nas suas cabeças.
A música parou.
A cortina fechou.
E o filme acabou.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um Dia...

Tinham um dia. Um dia para serem felizes.

Ela viveu toda a sua vida à espera daquele dia.
Ele quis fazê-la feliz.

Mas...
E depois daquele dia - quantos mais haveriam destinados à sua felicidade?

Ele queria prolongar aquele dia para sempre.

Mas não pôde. Era só um dia de felicidade que lhe concediam.

Então optaram por nadar.
Nadaram juntos, enquanto chovia e as nuvens tapavam o azul do céu. O mar agitado como a revoltar-se perante a injustiça de só lhes ser dado um dia de felicidade.

Nadaram. Olharam-se e foram felizes.

O dia acabou e eles pensaram: podemos ser felizes todos os dias.

A felicidade acabou.

O mundo fechou e eles voltaram à vida de todos os dias.
Suspensos de tudo aquilo que sonharam para a sua vida.
Sonhando a cada segundo poderem voltar àquele dia. Poderem repeti-lo.

Mas não poderam. Tinham de viver e deixar-se levar.

Mas por aquele dia de felicidade que viveram juntos, a vida tomou sentido e tudo valeu a pena.

Pai e filha viveram para sempre com uma boa recordação.


Com a recordação de um dia feliz!