Primeiro Dia
Hoje é o meu primeiro dia. Não que nasça hoje, pelo contrário, hoje morro, apesar de continuar a respirar. É, sim, o primeiro dia, daquela vida que não desejo nem para mim, nem para ninguém.
Tenho 63 anos, chamo-me Fernando, tenho filhos e já tive mulher. Ou melhor, continuo a ter, é e será, para sempre a mulher da minha vida, mesmo que comigo já não esteja, continuarei a amá-la até ao fim dos meus dias, que desconfio estará próximo.
Perguntam-me vocês, o que me aconteceu. Eu respondo, com vergonha, medo e muitas lágrimas a descer dos olhos. Fiz asneira. Tratei mal aquela que escolhi como mulher da minha vida. Sou, agora que falo para alguém que não sei bem quem é, por não ter rosto e não ter a sua reacção às minhas palavras, assumidamente mentiroso, e reforço, digo-o agora porque bati no fundo.
Trabalhei em França nos anos 60-70. Aquando do 25 de Abril, voltei. Havia um momento de liberdade que tinha de viver. Depois da euforia, mãos à obra. Ansiava constituir família e ter um trabalho que me orgulhasse e me desse o dinheiro fundamental para viver, sendo que agora vivia, podia dizê-lo, num país livre.
Consegui trabalho como professor de literatura numa escola na área da Grande Lisboa. Sempre gostei de ler, foi o meu pai quem me incutiu este gosto, desde criança. Ainda hoje, leio muitos livros, ao menos isso, nunca hei-de abandonar.
O facto de ser, como disse, mentiroso, levou a que tivesse de abandonar a família e tudo o que construi até hoje. Vivi numa pensão onde, com a minha parca reforma portuguesa e aquela que vem do meu trabalho em França, tinha de pagar o quarto e a comida. Por ter esse dinheiro não tenho quaisquer ajudas nem de Segurança Social, Santa Casa ou outra instituição social, agora que me vejo sem trabalho remunerado.
Vejo-me agora sem emprego. Com 100 euros de dívida naquela pensão, hoje é, o triste, primeiro dia em que vou dormir na rua.
NOTA: Esta é uma história, não apenas do «Fernando», mas de muitas outras pessoas, que ou já viveram este primeiro dia, ou que hoje se confrontam com ele. É através da minha experiência na Comunidade Vida e Paz (Associação de Apoio aos Sem-Abrigo de Lisboa) que tento dar alento a todos os «Fernandos» que se cruzam no meu caminho.
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