«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vejo-te ali. És aquele homem que está ali sentado, vês?
Com as calças de ganga gasta pelos anos que te vestiram, com a camisola de meia-estação que denuncia aquecer-te em demasiados momentos. Vejo a camisa a querer sair pela gola, e completamente de fora na cintura. Nunca tiveste muito jeito para roupa, e nunca gostaste de usar a camisa por dentro das calças. Para quê, não é?
Vejo-te ali, como sempre.
Como sempre que te vejo, hoje vejo mais além do que as tuas calças gastas, ou dos sapatos que te apertam os pés cansados pelos caminhos que já percorreste. Vejo mais do que as rugas que se formam nos teus olhos quando sorris por escassos momentos. Vejo muito mais do que as tuas mãos cansadas e com idade para estarem descansadas, que agora alguém trataria de ti.
Vejo mais do que tudo isto.
Vejo os teus pensamentos distantes. Vejo-te a lembrar o Tejo perdido numa imensidão de sentimentos, que já não vives, que já não sentes. E vejo-te a lembrar que já nem o Tejo tu vês. Há quanto tempo é que lá não passas? Talvez um dias destes, respondes a ti próprio, dando-te esperança para que haja novos dias com melhores momentos. Vejo que estão a chegar as lágrimas tristes, que tanto queres evitar. E não as evitas por estares comigo, evita-las por não as quereres. Pensas que para tristezas já basta o mundo em que vivemos, os bancos vazios onde nos sentamos, e os olhares distantes que te evitam. Essa tristeza é a tua vida, e por isso não queres chorar. Mas as lágrimas vencem-te nos pensamentos e caiem pela tua cara fria e fechada. Limpas o sal que te salga a vida. E com as lágrimas vai-se a tristeza.
Vejo como pensas. Vejo no que pensas.
E agora pensas em mim, e pensas no que faço eu aqui, à tua frente. E como te vejo o pensamento, respondo sem que tenhas tempo de me fazer a pergunta:
«Estou aqui porque te adoro, avô. Sempre»
Passo-te a mão na cara. Choras mais um pouco e desta vez sou eu que te limpo as lágrimas. Não as quero ver. Passo-te a mão na cara outra vez, e ainda com o rosto molhado sorris, e dizes aquilo que sempre quiseste dizer, que também me adoras. E nós os dois sabemos que é verdade!
Vejo-te ali. És aquele homem que está ali sentado, vês?

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