E o cheiro da lareira inundava-lhe a casa. E ela adorava. Aquele cheiro era mais do que cheiro a lenha queimada pela raiva do fogo contido naquele cubículo de pedra, era o cheiro da quietude do seu espaço, que se reflectia directamente na quietude do seu espírito.
E ela adora o cheiro da lenha a arder, que com o copo alto de vinho tinto na mão, e com a camisola de lã feita pela mãe já há alguns anos e oferecida de presente de Natal vestida, contempla como se fosse o primeiro dia que via aquele espectáculo de fogo domado.
E era nestes momentos que se sentia feliz. Só nestes. Os dias que vivia eram tudo menos felizes. E sentia falta destes momentos a sós com as chamas daquela lenha, que lhe inspiravam a fazer mais e melhor no dia seguinte. É por isso que assim que começam estes dias de Novembro, e apesar de pelas seis horas da tarde, o sol ter acabado de se pôr, ela acende logo aquele escape luminoso, e fica ali, a contemplar o seu momento.
Porque o mundo lhes disse que nunca mais poderiam viver como queriam.
Porque a vida lhes mostrou que o mundo nunca seria o que eles queriam que fosse.
Porque afinal, a vida e o mundo são realidades muito distantes daquelas em que todo o mundo vive.
E a única hipótese é atear o fogo àquela lenha!
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