«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Carta da Carlota

Olá. Não sei como começar esta carta, que como todas as outras te vem falar de mim, da minha vida, do meu amor. Nunca soube como começar cartas. Não gosto dos formalismos, e não gosto de demasiada proximidade, não deixa de ser uma carta, um papel com letras que formam palavras e frases que juntas fazem sentido e contam algo. Esta carta é só mais uma, mas, mesmo assim, não sei como a começar.
Mas sem querer já a comecei. E comecei com um "Olá." Espero que não te importes, mas não me quero debruçar muito sobre esse assunto. Tenho mais que fazer do que pensar em como começar cartas. Enfim.
Acho que te posso falar da noite aqui, deste lado do mundo. A noite aqui é bonita, não como aquelas em que partilhámos tudo, mas bonita. Hoje está uma lua linda... E esta é mesmo linda! Acho que nunca partilhei uma lua assim tão linda, e como hoje não estás aqui comigo, decidi escrever-te esta carta, para poder partilhá-la contigo, que é com quem me apetece que partilhe os bons momentos. Espero que gostes desta lua tanto quanto eu!

A vida aqui tem corrido o seu curso normal. Tenho andado adoentada, e isso é uma chatice! Mas já estou a melhorar, e estou quase, quase a começar as aulas na minha nova escola... Estou tão entusiasmada! Nem imaginas o que sonho... é que todas as noites acordo a pensar em como será a vida nesta nova escola, cheia de gente que não conheço, com pensamentos diferentes, e com vidas que são em tudo distantes da minha. Tenho medo que me achem estranha. Um medo real, porque afinal essa é uma realidade - muitas pessoas me acham estranha. Tu, achas-me estranha?

... este é o lado mau de escrever cartas, é fazer perguntas, mas nunca ter as respostas no momento, mas, por favor, responde-me sempre às perguntas. Eu espero o tempo que tiver de ser, mas nunca me deixes sem respostas, é que penso em tantas perguntas para te fazer, que depois ficar sem respostas era uma chatice.

Mas vá, não te empato mais, já dei o gostinho ao dedo, já matei as saudades da alma e já partilhei esta lua linda que sobe na noite, como o sol sobe no dia.
Espero que gostes destas palavras, por simples que sejam, foram escritas nesta folha de papel a pensar sempre em ti!
E agora vem outro problema - como terminar a carta... Não quero saber, termino como acho que a devo terminar: com o mais sincero dos sentimentos e o menos possível de ser realmente perfeito.

Com Amor,
Carlota.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Já nem sei o que pensar. Não posso mais com este cheiro. Quero aquele cheiro... quero novos cheiros. Quero poder conhecê-los e dizer se gosto. Quero sair desta concha que me oprime. Quero sair destas pessoas que me entristecem sem saberem. Quero mais. Quero ter forças para ter mais, e quero conseguir ter mais. Mas não sei o caminho para isso.
Que treta. Estou mesmo farto deste cheiro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

É isso mesmo. É o meu sonho. Descobriste-o. Ou talvez não o tenhas descoberto, porque nunca o escondi de ninguém. Sim, é esse o meu sonho. E ninguém me tira da cabeça que um dia o hei-de viver, o hei-de realizar. E só te quero a ti e a toda a gente atentos para perceberem e me dizerem que é o meu sonho que está a acontecer, por favor, não deixem de me avisar, porque às vezes isso passa-nos à frente e nada fazemos. E eu quero fazer algo: quero aproveitá-lo.

Mas o que é que estou para aqui a dizer? Desculpa lá, hoje estou triste e isso lixa-me a vida. Anda tudo torto ou então sou eu que não me endireito com o mundo, com as pessoas que o habitam, e com a história dos sonhos impossíveis. Todos os sonhos deviam ser possíveis, não achas? É que fico assim só de pensar que um dia posso morrer sem realizar os meus. Mas os meus sonhos são tão difíceis de realizar... principalmente neste mundo que me parece nunca estar preparado para mim.

Que treta!

Ai, e esta vida que insiste em me deixar assim. É que há dias em que não estamos bem. Mesmo que passemos um ou outro momento bem, o dia no seu todo é cheio de maus cálculos de espaço, em que acabamos por bater na porta do armário, na esquina da secretária, no sapato que está no caminho ou, e mesmo sem querer, no gato que se põe no nosso caminho... ai e aqui em casa o que não falata são gatos, tu sabes. E é difícil. Eles estão sempre a meter-se no nosso caminho, e correm felizes pelo verde do jardim, mas depois tens a vida que te chama e que te diz que não és um gato e que não podes correr assim: feliz no verde de um qualquer jardim.

Porquê?

São as contas que vou ter de pagar, o dinheiro que está a acabar antes de chegar e a merda dos sonhos que exigem dinheiro. Desculpa, disse merda e não devia ter dito merda. Mas que merda de vida é esta que ando a viver? A sério que não percebo, é o que nunca quis para mim: uma vida assim - triste e sem orientação. Por favor, deixa cair uns trocos no caminho, um talão dos jogos de dinheiro, ah, e se poderes, a realização dos meus sonhos mais perto de mim. É que há dias em que é difícil conviver com eles e hoje é um deles, apesar de não dever. A inspiração que recebo devia dar-me forças para ser melhor, mas deixa lá, não é esse o caso.

Hei-de me sentir um dia inteiro feliz, o que dizes? Gostas da ideia? Eu também gosto, e vou lutar para ser feliz, como aliás acho que tenho feito, mas não sei porquê, hoje não está a resultar e estou assim, enfim.

Vou ali. Adeus.