«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


domingo, 20 de abril de 2008

«Só um homem que nada contra a corrente conhece a sua verdadeira força» Thomas Wilson

Era um dia normal na vida de Eduardo. Acordar cedo, preparar o pequeno-almoço para Ângela e o lanche do filho Diogo, gostava de dar esta ajuda à mulher que era quem levava o Diogo à escola, quem o ia buscar, quem lhe dava banho, quem ajudava nos trabalhos de casa, quem brincava com ele, quem lhe dava o jantar e quem o deitava todos os dias.

Eduardo só vê o filho acordado de manhã, pois chega tarde a casa e Diogo já dorme, como ele em tempos dormiu.

Eduardo não se importa desta meia-hora matinal que dá à mulher e ao filho, é como o jantar de família diário que só acontece ao fim-de-semana. A mulher não gosta de jantar tarde, mas espera por Eduardo todos os dias para jantarem juntos e passarem algum tempo de qualidade.

Neste dia normal, o despertador tocava à mesma hora. Eduardo levanta-se tentando não perturbar Ângela, mas ela acordava sempre com o despertador de Eduardo. Neste dia depois de dizer 'bom dia' disse simplesmente:

- Hoje não quero café, quero chá.

Para Eduardo era estranho, pois Ângela era viciada em café, e de manhã é que se começa o dia... Mas se Ângela pedia, Eduardo fazia. Era nestas pequenas acções que Eduardo tentava compensar o facto de estar fora de casa todos os dias das 08.00 às 21.30.

As suspeitas de traição de parte a parte já existiram, mas o amor entre este casal era invulgar e quem os visse diria que era 'até que a morte os separe'.

E foi mesmo, na opinião de Eduardo, o facto de Ângela ter pedido chá em vez do habitual café já anunciava algo de diferente.

Aconteceu, Ângela teve um acidente quando ia buscar Diogo à escola e acabou por morrer a caminho do hospital.

Eduardo neste dia conseguiu sair mais cedo do trabalho, sem saber o que se passava. Recebeu uma chamada enquanto conduzia. Era do hospital, Ângela morrera. Sem tempo para respirar enquanto desliga o telfone as lágrimas começam a cair-lhe e o telfone volta a tocar. Era da escola de Diogo, ainda ninguém o foi buscar. Eduardo vai.

Quando Diogo o viu, para além de toda a alegria de ver o pai em vez da mãe, achou tudo aquilo fora do normal. O pai abraçou-o com tanta força que Diogo desconfiava. Eduardo chorou e Diogo também. Iam ao hospital para saber promenores. Quando chegaram a casa Diogo dormiu, Eduardo não. Nada fazia sentido. Ângela morrera mesmo. Como era isso possível? Ele queria morrer também, mas não podia. Diogo percisava dele, e ele ia viver. Quando se apercebeu eram 07.30 e o despertador tocava. Levantou-se e decidiu que ia viver pelo filho, ia ser mãe e pai, ou melhor ia ser o pai presente que nunca tinha sido e que agora era necessário.

A tristeza imperava, mas os dias passaram e quando um ano passou sobre a morte de Ângela, Eduardo apercebeu-se de como era verdade aquele provérbio que diz «O que não nos destrói, torna-nos mais fortes!» e desta forma percebeu também que só quando se viu nesta situação notou que tinha força e que teve de encontrar ainda mais para viver e sobreviver perante este momento da sua vida.

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