«nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só
pelo bem que soam juntas»

José Saramago in A Viagem do
Elefante


domingo, 31 de outubro de 2010

Porque...

Porque disseste que voltavas, mas nunca voltaste, e porque disseste que não me irias mentir mais, mas mentiste uma e outra vez. É assim a vida e isso eu já devia saber. Mas nós acreditamos nas pessoas, esperamos que mudem, que nos mostrem o seu outro lado e que elas próprias o descubram. Mas nem sempre isso acontece, e tu voltaste a mostrar-me isso, e eu só te tinha pedido para que nunca o fizesses.
Mas voltaste a fazê-lo e foi difícil olhar-te de novo hoje, ali, naquele banco de jardim com o teu sorriso feliz, e com o teu chapéu de aba larga verde claro. Estavas bonita. Como sempre, aliás. Mas foi difícil ver-te ali e não te poder desfazer o sorriso hipócrita com as lágrimas que provocaste. Houve quem sempre te adorasse, e não tivesse a culpa de seres assim.
Mas espero que um dia a vida te mostre isso. Porque afinal de contas, o amor é rápido a chegar mas demorado a ir embora. Muito demorado.

Porque nem sempre aquilo que queremos é aquilo que acontece.
Porque nem sempre aquilo que sonhamos se concretiza.
Porque nem todos os dias podem ser dias de Primavera.

Há que olhar pra o dia seguinte e pensar: porque não amanhã?
[para a C., com o carinho do costume]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010








E é bom quando há coincidências. Quando há surpresas.
É bom quando há gestos partilhados, quando há bons momentos.
É muito bom cada linha que partilhamos, cada palavra que nos sai do corpo.
É bom saber que existe alguém que partilha connosco um sonho, ou que entende o nosso.
É bom haver coisas boas.
É bom poder escrever, como é bom poder ler.
É bom poder ser livre para gostar da prisão que às vezes um livro pode ser.
Ou então não.
E é bom não sermos livres para gostarmos da liberdade das palavras de outros, que tantas vezes assumimos como nossas.
Gosto de palavras. Ditas ou escritas. Mas acima de tudo, sentidas!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sempre Assim

Acende o cigarro.
Fuma um bocado.
Apaga este e acende outro.
Desta vez foi diferente.
O seu cigarro foi partilhado.
E foi fumado até ao fim.
Soube-lhe bem fumar.
Deu-lho.
Deixou-a fumar o seu cigarro.
Foi muito bom, voltar a fumá-lo antes de o apagar,
já com a marca e o sabor do seu bâton vermelho,
que sem saber nunca voltaria a conhecer...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

E a chuva tinha parado e ele sabia que tinha de cumprir o prometido.
Foi ter com ela e disse-lhe o que pensava.
A chuva voltou. Ela chorou. Ele virou as costas e desejou que a chuva o levasse,
para sempre.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Outra vez?

Sim, outra vez.
Menos doloroso, mas tudo outra vez. E a culpa foi vossa. E quem sofreu foram vocês e nós.
E não queremos que isto aconteça mais vez nenhuma, pois não?

Não.

Então portem-se bem e deixem-nos em paz.
Cresçam de uma vez e deixem-nos de fora dessas confusões só vossas.